Como funciona o Cérebro de um Mentiroso?

 

Como algumas pessoas conseguem mentir com tanta naturalidade, sem demonstrar o menor sinal de desconforto ou culpa? 


Assim como um atleta treina para baixar seu tempo ou um músico pratica para dominar um instrumento, o mentiroso habitual treina sua mente para a desonestidade. Isso é possível graças à plasticidade cerebral. 

A neurociência trouxe revelações perturbadoras sobre como o cérebro se adapta ao erro. O componente principal aqui é a amígdala, uma pequena estrutura no sistema límbico responsável pelas nossas reações emocionais e pelo sentimento de culpa.

De acordo com estudos publicados na Nature Neuroscience, o processo funciona como uma "escada":

1. A Primeira Mentira: A amígdala reage fortemente. Sentimos desconforto, batimento acelerado e remorso.

2. A Repetição: Com o uso constante do engano, a amígdala para de reagir. Ela cria tolerância.

3. A Adaptação: O cérebro se adapta à desonestidade. O sentimento de culpa desaparece, permitindo que a pessoa minta sem qualquer barreira emocional.

Quando a mentira se torna um estilo de vida, as motivações costumam ser específicas: busca por status, poder ou interesse pessoal. O que começa com "mentirinhas brancas" pode se transformar em um padrão cerebral moldado pela repetição.

Nos mentirosos patológicos, a questão não é apenas de "falta de sentimento". O cérebro de um mentiroso patológico apresenta diferenças estruturais físicas. 

Pesquisas conduzidas pelo Dr. Dan Ariely revelaram dados fascinantes:

• Menos Substância Cinzenta: Mentirosos patológicos apresentam cerca de 14% menos substância cinzenta.

• Mais Substância Branca: Eles possuem entre 22% e 26% mais substância branca no córtex pré-frontal.

O que isso significa na prática? A substância branca é responsável pelas conexões. Ter mais dela no córtex pré-frontal significa que o cérebro do mentiroso faz associações entre memórias e ideias muito mais rápido. Isso dá a eles a agilidade mental necessária para criar histórias complexas, manter a consistência das mentiras e acessar justificativas rapidamente.


Conclusão:

Para ser um mentiroso "eficiente", o cérebro precisa de duas ferramentas principais: memória de trabalho afiada (para não se contradizer) e frieza emocional (para não ser traído pela empatia). Para isso, ele precisa aprender a funcionar se maneira diferente do normal.

Ou seja, a ciência nos mostra que a honestidade não é apenas um valor moral, mas também um modo de funcionamento do nosso cérebro. Quando escolhemos falar apenas a verdade,  estamos não apenas sendo honestos, mas também cuidando da nossa saúde cerebral.


Referência bibliográfica:


Trombectomia: oportunidade para salvar o cérebro

 


A indicação de trombólise endovenosa e trombectomia envolve decisões independentes. Ou seja, um tratamento não exclui o outro. Entretanto, a chance da trombolise endovenosa reverter o déficit causado por um AVC de segmento proximal da  artéria cerebral média é quase nula.

Por essa razão, diante da evidência de oclusão proximal, como o sinal da artéria cerebral média hipertensa, a trombólise endovenosa não deve atrasar a trombectomia. Por exemplo, paciente faz a arteriografia enquanto o trombolítico está sendo infundido e interrompe a infusão para realizar a trombectomia caso seja confirmado a oclusão proximal.

Para acessar o artigo clique aqui: Stroke 2011;42(6):1775-7


Posteriormente, a avaliação da causa do AVC é fundamental para definir a terapêutica de prevenção secundária mais adequada. Apesar dos avanços dos exames diagnósticos, muitas vezes a investigação complementar habitual não é suficiente para determinar a etiologia do AVC e o paciente segue sem causa definida. 

Um artigo publicado no Neurology este ano discute o benefício do exame histológico do trombo obtido na trombectomia, especialmente útil para elucidação de causas menos comuns de AVC, que pode mudar a conduta médica, como a calcificação do anel mitral.


Para acessar o artigo clique aqui:  Neurology 2023;101(7):e777-e779

Demência Fronto Temporal



Uma mulher de 57 anos começa a apresentar há cerca de 2 meses alteração de personalidade que levaram a situações embaraçosas para a família. por exemplo, frequentemente, recusa alimentos que os filhos lhe oferecem alegando estar envenenados com intuito de assassina-la com intenção de receberem a herança. Também não raramente, levantava falsa suspeitas e se exaltava diante da imaginaria infidelidade do marido a cada mulher que o mesmo cumprimentava socialmente, chegando inclusive a acusá-lo de ter filhos fora do casamento. Chegou a se indispor várias vezes com vizinhos e algumas situações por pouco não se tornaram caso de polícia. 


Quando inquirido, o marido considerada que já há mais de um ano a paciente já vinha apresentando comportamento diferente. Segundo ele, a paciente sem foi uma mulher muito educada e introvertida, falava baixo. No último ano passou a falar em volume mais alto, interromper o interlocutor durante a conversa, utilizar linguagem chula e passou a ser invasiva, bombardeando sistematicamente pessoas sem intimidade com perguntas sobre a vida pessoal delas, algo que antes jamais faria. À mesa, sempre respeitou muito bem todas as normas de etiqueta, mas nos últimos meses passou não apenas a ignora-las, mas também a ser grosseira, servindo-se com as mãos por exemplo. Sempre vestiu-se de maneira elegante, mas ao longo dos meses passou gradativamente a desleixar-se com a combinação e estilo das roupas. A memória, por outro lado, parecia permanecer intacta. 

 
O exame de ressonância magnética mostra atrofia fronto-temporal bilateral simétrica.


Os sintomas iniciais mais comuns da demência fronto temporal (DFT) incluem alteração progressiva da personalidade, comprometendo o relacionamento social, dificuldade com a linguagem comprometendo a comunicação, desinibição e impulsividade. 



O que é epilepsia?


O que é epilepsia?

Epilepsia é um distúrbio do cérebro em que crises epilépticas ocorrem de maneira recorrente, sem alerta prévio. Vários tipos de crise epiléptica podem ocorrer na epilepsia. A crise convulsiva, ou "convulsão" é o tipo mais conhecido. 


As crises epilépticas são chamadas de focais com apenas uma área restrita do cérebro for acometida e de generalizadas quando todo o cérebro estiver sofrendo, como ocorre na "convulsão". É comum, entretanto, as crises epilépticas começarem focais e progredirem para generalizadas. Por outro lado, muitas vezes não é possível determinar como é o início de uma crise generalizada, se focal com generalização secundária, ou se já primariamente generalizada desde o início.

Uma "convulsão" é como uma “tempestade elétrica” no cérebro. Durante a crise, o padrão de atividade elétrica normal do cérebro é alterado. O cérebro torna-se temporariamente hiper-reativo e os neurônios passam disparar impulsos elétricos simultaneamente e de maneira irregular. Isto leva à alterações no comportamento e no funcionamento do corpo.


Tanto crises focais quanto generalizadas podem estar associadas a alteração da consciência e a sintomas motores, como espasmos, abalos motores, rigidez, etc. Alguns pacientes relatam que conseguem compreender mas não conseguem falar durante as crises. Outros relatam que têm dificuldade para verbalizar a frase ou palavra e parecem estar confusos durante. Alguns podem de fato interagir de maneira inapropriada e ao fim da crise não se lembrarem do que ocorreu durante.


Ter uma única crise epiléptica isolada não implica que a pessoa tenha epilepsia. Muitas pessoas tem crises convulsivas e não desenvolvem  epilepsia, ou seja, as crises não nunca recorrerão. Uma pessoa não é considerada portadora de epilepsia até que ela tenha apresentado duas ou mais crises epilépticas.

 

O que causa epilepsia?


Qualquer fator que perturbe o funcionamento normal do cérebro pode levar a uma crise epiléptica. Entretanto, a causa não é encontrada na maioria dos pacientes. Algumas possíveis causas são:

  • Infecções do sistema nervoso que causam lesões permanentes no cérebro.
  • Lesões decorrentes de problemas que comprometem a circulação sanguínea cerebral, como AVC ou aneurimas.
  • Anormalidades no desenvolvimento do cérebro.
  • Tumores cerebrais benignos ou malignos.
  • Causas hereditárias.
  • Traumatismo craniano.

O que podemos fazer se presenciarmos alguém "convulsionando"?


Uma "convulsão" típica dura 1-2 minutos. Permaneça com pessoa e se a crise durar 3-5 minutos ou mais (crise longa), significa que a pessoa precisa ser levada a um serviço médico. Procure manter a calma e jamais tente conter a pessoa, interromper os movimentos ou inserir qualquer coisa em sua boca com intuito de impedir que a língua "enrole". 


Como é a qualidade de vida com tratamento?


A maioria das pessoas com diagnóstico de epilepsia vivem normalmente, controlando as crises com uso de medicamentos e, mais raramente, com procedimentos cirúrgicos. Ainda assim, a qualidade de vida é diferente a cada paciente e cerca de 40% não atingem o controle pleno das crises. Existem preocupações sobre a doença, em relação ao estigma social e, principalmente, em relação a suas complicações que podem levar a graves problemas de saúde e inclusive à morte. 

Portadores de epilepsia podem dirigir desde que estejam há pelo menos 1 ano sem crise, ou até 2 anos em situações específicas. 
É importante caracterizar o tipo de crise porque algumas medicações são mais efetivas para tipos específicos de crises. Algumas medicações podem interferir com o efeito de contraceptivos hormonais e outras aumentam o risco de desenvolvimento de anomalias congênitas se usadas durante a gravidez. Por isso, o neurologista precisa discutir com seu paciente vários aspectos e escolher a medicação individualmente para cada situação.


Você está sob risco de ter um AVC?

Você está sob risco de ter um AVC? 

O AVC isquêmico é causado pela obstrução de uma vaso que promove a irrigação sanguínea do cérebro, o que pode ocorrer em situações diversas. 

Qualquer pessoa pode ter um AVC, mas alguns fatores aumentam a chance dele ocorrer. São os chamados fatores de risco. Alguns fatores de risco podem ser controlados. Se você tiver algum destes fatores de risco modificáveis, vale a pena conversar com seu médico sobre estratégias para controla-los e assim reduzir o risco de ter não apenas o AVC, mas também outras doenças cardiovasculares. 

  • Hipertensão arterial


É o principal fator de risco. A pressão ideal é até 120/80. Acima de 140/90 a pressão causa lesão no vaso, favorecendo estreitamento, liberação de coágulos ou ruptura com sangramento. 


  • Tabagismo


Fumar aumenta a chance de morrer pelo AVC. Torna o sangue mais propenso a formar coágulos e diminui o HDL, chamado de colesterol bom. O cigarro contém várias toxinas que causam lesão na parede do vaso, favorecendo a aglutinação de coágulos que obstruem a passagem do sangue. 


  • Obesidade


Excesso de células gordurosas, particularmente no abdome, favorecem um estado inflamatório que dificulta a circulação e aumenta o risco de bloqueio ao fluxo de sangue, ambos conhecidas causas de AVC. 


  • Idade 


O AVC pode ocorrer em qualquer idade, mas com o envelhecimento, a função de todos os órgãos deteriora progressivamente. A partir dos 55 anos de idade, a chance de ter um AVC dobra a cada década de vida a mais. 


  • Gênero 


De acordo com as estatísticas da American Heart Association, mulheres têm AVC com mais idade e como tendem a ter expectativa de vida maior, a prevalência de AVC no sexo feminino é maior em relação aos homens. Também, a recuperação completa do AVC é menos provável nas mulheres. 


  • Diabetes 


Diabetes causa anormalidades nas células que constituem a parede dos vasos sanguíneos, favorecendo um estado de inflamação responsável pela aglutinação de coágulos que causa a obstrução do vaso.





Maneiras para diminuir seu risco de ter AVC 


  • Praticando exercício físico

Tenha por objeto praticar pelo menos 150 min por semana de atividade física moderada. Esses 150 minutos não precisam ser contínuos, você pode divididos da maneira que for mais conveniente para se adaptar à sua rotina. Por exemplo, uma pessoa que caminha 15 minutos para ir ao trabalho de manhã e mais 15 minutos para voltar a tarde, de segunda a sexta feira, já cumpriu a meta. 



Em paralelo, evite permanecer longos períodos sentado. Faça pausas para andar, circulando um pouco pelo ambiente, inclusive no local de trabalho. 


  • Dieta saudável

Limite a quantidade de carne vermelha e alimentos processados, como embutidos, na sua dieta. Evite gordura trans e reduza a quantidade de sódio (sal) na dieta. Procure comer mais grãos integrais, vegetais, frutas, nozes, castanhas e sementes, iogurte, e peixes. 


  • Controlando a pressão arterial

Embora a pressão arterial seja considerada alta a partir de 140/90, o ideal é mantê-la em 120/80 ou abaixo disso. Ou seja, para prevenção do AVC, quanto mais baixa melhor.


Além de prescrever medicações anti-hipertensivos, seu médico irá orienta-lo em relação às várias estratégias não medicamentosas que ajudam a manter a pressão arterial controlada, como perda de peso, atividade física e dieta adequada.





 👉  Stroke. 2021 Jul;52(7):e364-e467.

Pets robôs trazem alegria a pessoas com Alzheimer

Pets robôs trazem alegria a pessoas com Alzheimer

Algum tempo após o diagnóstico de demência, torna-se evidente para muitas famílias que seu idoso necessitará de cuidados além dos quais elas conseguem prover e por isso muitas destas famílias precisam transferir seus idosos para instituições de moradia assistida especializadas. O paciente gradualmente perde a conexão com o mundo externo, passando a ter dificuldade para reconhecer tudo o que antes lhe era familiar, como objetos pessoais, locais, canções, pessoas, alimentos preferidos, etc. Anos depois, o vocabulário torna-se pobre. As frases se reduzem a poucas palavras curtas, verbos substituem pronomes, palavras sem significado são criadas para preencher lacunas no discurso e finalmente o paciente torna-se incompreensível.

Este processo, entretanto, não progride de maneira linear. Os pacientes têm momentos de maior confusão em que ficam mais desorientados e momentos de lucidez parcial em que podem ter consciência de suas dificuldades. Durante os períodos de consciência, podem sentir solidão e tristeza diante da própria realidade de vida. 


Várias estratégias podem ser usadas para minimizar essa sensação. Já mostramos em outro post dar uma boneca para o paciente cuidar como um bebê real é uma delas. Estes artigos mostram que animais de estimação robotizados também ajudam esses idosos com demência a superar a sensação de solidão. 


Bem diferente de um Pet real, um robô não necessita de cuidados diários, responsabilidade que estes idosos seriam incapazes de assumir. Por outro lado, existem Pets robôs surpreendentemente realísticos, com pêlos macios, ruídos característicos e reações à interação com humanos tal como animais de verdade. 


Não conheço nenhum Pet robô à venda no mercado para essa finalidade específica, mas vejo que, na prática, animais de brinquedo funcionam tão bem quanto a literatura indica.



The Utilization of Robotic Pets in Dementia Care

👉 Sandra Petersen et al. J Alzheimers Dis. 2017.



Impacts of Low-cost Robotic Pets for Older Adults and People With Dementia: Scoping Review

👉 Wei Qi Koh et al. JMIR Rehabil Assist Technol. 2021.





Robotic Companion Pets and Seniors With Dementia in Nursing Homes

👉 Samantha Walker. Prof Case Manag. 2022 Mar-Apr.


Quando problema de memória e “esquecimento” pode ser positivo para o cérebro?

 

Há algum tempo os neurocientistas sabem que as mesmas áreas do cérebro são recrutadas tanto na memória quanto para elaboração da imaginação. Acredita-se que a nossa capacidade de pensar retrospectivamente sobre o passado está, de alguma forma, vinculada à capacidade de pensar prospectivamente sobre o futuro. 

A memória desempenha um papel extenso em todas as etapas do processo criativo. Primeiro,  exercendo sua função adaptativa, a memória permite planejar, ou imaginar não apenas o futuro, mas também é através dela que criamos perspectivas sobre o presente. 

"Tempo presente e tempo passado. São ambos talvez presentes no tempo futuro" (T.S. Eliot)

Nesse processo de planejamento, a memória funciona como um simulador no cérebro, fornecendo o combustível para nossa viagem mental no tempo. É aí que "falhas" favorecem o processo criativo.

Se você não se lembra de tudo, vai precisar preencher as lacunas. Esse processo é dinâmico e automático: a memória evoca experiências armazenadas que retorna cheio de lacunas e imediatamente a imaginação vai preenchendo essas lacunas para ligar os fatos lembrados. Lembrar mal e esquecer permitem a flexibilidade cognitiva exigida pela imaginação. 

Esta simulação baseada em memória e imaginação possibilita produzir soluções criativas para uma miríade de problemas.

Mas como o cérebro humano define o deve registrar e o que pode ser esquecido?

Na realidade, a primeira coisa que fazemos com a maioria das informações que recebemos sobre o mundo é esquecê-las, pois quase nada vale a pena manter.

Para memorizar voluntariamente uma informação ou atividade que nos seja útil, procuramos repeti-la várias vezes ou ensaia-la. Alguns eventos se repetem naturalmente ao longo do tempo e com a repetição involuntária de uma mesma experiência também leva à memorização. Por exemplo, ao fazermos diariamente o mesmo trajeto de ônibus, memorizaremos o itinerário.

Ainda assim, nem todas as informações armazenadas são úteis. Algumas coisas ficam registradas na memória porque estão fortemente conectadas a emoções, como admiração, susto ou medo. A emoção funciona para o cérebro como um sinalizador de que a informação é algo muito importante para a sobrevivência. 

Considera-se três tipos de memória:

A memória icônica, ou visual, é a mais curta. Quando olhamos para uma cena ou objeto e depois rapidamente fechamos os olhos ou desviamos o olhar, a imagem fica retida na mente por algum tempo. Esse tempo é suficiente para que possamos trabalhar com essa memória. Por exemplo, um caminhão baú passa rapidamente por você e logo em seguida você telefona para o número de telefone que estava anunciado na carroceria dele para contratar o serviço da empresa. Geralmente são informações que não valem a pena manter armazenadas para sempre.

A memória de longo prazo armazena tudo que aprendemos e precisamos lembrar amanhã, no dia seguinte ou daqui a 10 anos. O processo de registro se dá pela repetição, ou "ensaio". Ou seja, se repetirmos várias vezes o número de telefone que vimos rapidamente na carroceria do caminhão, passaríamos a  armazená-lo na memória de longo prazo por horas ou até mesmo para o resto da vida.

Podemos exercitar esse processo de registro criando padrões de repetição para que as informações presentes regularmente em nosso ambiente sejam armazenadas mais rapidamente. Assim trabalham os atores, por exemplo, acostumados a decorar os longos diálogos dos personagens que precisam interpretar; ou também os garçons que se acostumam a decorar inúmeros pedidos complexos de vários clientes. Esse processo de registro envolve estruturas complexas de memória.

A o registro na memória de longo prazo torna-se ainda mais fácil se o processo envolver compreensão conceitual. Palavras são mais facilmente memorizadas quando classificadas em categorias do que quando são apresentadas aleatoriamente, por exemplo. É aqui que a imaginação atua novamente, criando suposições para preencher as lacunas na formação do conceito que envolve o fato na memória. 


👉 Commun Biol. 2022 Jun 16;5(1):604


👉 Benedek, M., Beaty, R.E., Schacter, D.L. et al. The role of memory in creative ideation. Nat Rev Psychol 2, 246–257 (2023).

Envelhecimento: o cérebro dos 40.

  • A partir da quinta década de vida, o cérebro começa a passar por uma “reconexão” radical das sinapses e das estruturas cerebrais, o que resulta na formação de diversas novas redes neurais.
  • Esta mudança gradual na integração das estruturas cerebrais ao longo das décadas seguintes tem efeitos importantes na cognição.
  • Esta mudança, provavelmente, resulta do cérebro se reorganizando para continuar funcionando com uma estrutura física envelhecida.
  • Estilo de vida saudável favorece uma melhor reorganização das conexões sinápticas e assim um melhor funcionamento intelectual na velhice.


Como o cérebro envelhece?

No início, em nossa adolescência e idade adulta jovem, o cérebro parece ter inúmeras redes isoladas umas das outras com altos níveis de conectividade interna, refletindo a enorme capacidade de especialização que ocorre nesta fase da vida. Isso faz sentido, pois é neste momento que estamos aprendendo a praticar esportes, falar idiomas e desenvolver talentos. 

Por volta dos 40 anos, no entanto, isso começa a mudar. O cérebro começa gradualmente a ter menos conexões dentro de cada uma destas redes isoladas e mais conexões entre elas, ligando o cérebro. Quando chegamos aos 80 anos, o cérebro tende a ser menos especializado regionalmente e mais amplamente conectado e integrado.

Mas porque isso acontece?

Provavelmente isso é um mecanismo compensatório. Com o envelhecimento ao longo da vida, o aproveitamento dos recursos e estruturas do corpo humano diminui progressivamente, incluindo o Sistema Nervoso. Com uma nova rede de conexões sinápticas, o cérebro saudável tende a prevenir que o declínio inerente ao envelhecimento normal deteriore para incapacidade funcional de qualquer tipo.

E qual a consequência disso?

O efeito dessa reconexão neuronal sobre a cognição é sensível nos adultos a partir da quinta década de vida. Com o passar dos anos, tendemos a ser mais rígidos e a ter mais dificuldade para aceitar novos conceitos, nos tornamos mais impulsivos e com menor capacidade de inibição, a capacidade de abstração diminui (cálculos e simbologia de linguagem), entre outras características. 

Entretanto essas mudanças não necessariamente podem ser negativas. Primeiro porque algumas atividades que para os mais jovens são complexas, podem tornar-se mais simples com o envelhecimento. Por exemplo, tarefas que dependem de treino ou automatizados são melhor desempenhadas ao longo da vida.

É possível moldar a reconexão neuronal para termos uma melhor qualidade cognitiva na velhice?

Sim. Toda atividade que fazemos ao longo da vida influencia a organização da rede de conexões sinápticas no cérebro. Se mantivermos um estilo de vida saudável, estamos não apenas favorecendo uma melhor organização dessa rede para atenuar um possível declínio cognitivo, como também retardar todo o processo e manter o padrão de conexões do adulto jovem por mais tempo. Por essa razão, hábitos como dieta saudável, atividade física, sono regular, não fumar, etc. devem ser estimulados em todas as fases da vida.


👉 The older adult brain is less modular, more integrated, and less efficient at rest: A systematic review of large-scale resting-state functional brain networks in aging. Psychophysiology, 60, e14159.